Iemanj√°/Yemoja (ūüáßūüá∑)

Festa de Iemanj√° em Vit√≥ria ‚ÄĒ ES, 2011.

Iemanj√° talvez seja a orix√° mais conhecida no Brasil. Um pa√≠s com uma costa de mar gigantesco, faz bastante sentido. Em toda casa de qualquer cidadizinha ribeirinha ter√° no altar uma imagem cat√≥lica e outra de Iemanj√°. Al√©m das celebra√ß√Ķes do dia 2 de fevereiro, temos tamb√©m no Brasil a tradi√ß√£o de vestir branco na virada do ano e lan√ßar pedidos, oferendas ou simplesmente ‚Äúpular as sete ondinhas‚ÄĚ no mar.

Justamente por isso, eu quero come√ßar o texto aqui falando de como Iemanj√° √© celebrada na √Āfrica e como isso chegou no Brasil, em especial Salvador na Bahia.

A primeira coisa a saber √© que estamos falando dos iorub√°s na √Āfrica, que segundo Biobaku (1958, apud Verger, 2018) √© o termo que se aplica a um grupo lingu√≠stico, unidos por uma mesma cultura e tradi√ß√Ķes de origem comum, na cidade de If√©, mas n√£o constru√≠ram uma √ļnica entidade pol√≠tica e pouco prov√°vel se chamavam assim antes do s√©culo XIX.

‚ÄúO termo ‚Äúiorub√°‚ÄĚ parece ter sido atribu√≠do pelos [povos] haussa exclusivamente ao povo de Oy√≥. Ademakinwa (1956, p. 60) escreve que ‚Äúa extens√£o desta palavra √© devida √† iniciativa de Samuel Ajayi Crowther, nascido em 1810 em Oxogun, no reino de Oy√≥. Aprisionado pelso fulani, em 1821, e vendido como escravo em Lagos, foi libertado por um cruzador brit√Ęnico da esquadra de repress√£o ao tr√°fico de escravos. Levado a Freetown, em Serra Leoa, em 1822, onde estudou, foi em seguida √† Inglaterra e voltou √† √Āfrica, onde terminou sua carreira como bispo anglicano. Redigiu, em 1852, seu Vocabul√°rio iorub√°, que era sua l√≠ngua segundo defini√ß√£o dos haussa. J√° em 1830, o Reverendo John Raban da Church Mission Society publicara, com o aux√≠lio de Ajayi Crowther, um vocabul√°rio que ele ainda denominava eyo, mas onde declarava que ‚ÄúIorub√° √© a domina√ß√£o geral de um grande pa√≠s com cinco regi√Ķes: Oy√≥,Egbwa, Ibarupa, Ijebu e Ijex√°.‚ÄĚ (Verger, 2018, p. 23).

Eram mais de cinco na verdade, mas havia um interesse dos mission√°rios de unificar o entendimento dessa cultura.

Quando falamos de orixás (Òrìsà) estamos nos referindo a religião dos iorubás e que não há uma unificação de práticas nem a mesma hierarquia entre os orixás. Há locais que demonstram que certos orixás que ocupam uma posição dominante em alguns lugares, e em outros estão totalmente ausentes. Iemanjá, por exemplo, que é soberana na região de Egbá, não é sequer conhecida na região de Ijexá.

‚ÄúDiante de extrema diversidade e de in√ļmeras varia√ß√Ķes de coexist√™ncia entre os orix√°s, fica-se descrente diante de certas concep√ß√Ķes demasiado estruturadas.A religi√£o dos orix√°s est√° ligada √† no√ß√£o de fam√≠lia. A fam√≠lia numerosa, origin√°ria de um mesmo antepassado, que engloba os vivos e os mortos. O orix√° seria, em princ√≠pio, um ancestral divinizado, que, em vida, estabeleceram v√≠nculos que lhe garantiam um controle sob certas for√ßas da natureza (‚Ķ) ou ent√£o assegurando-lhe a possibilidade de exercer certas atividades como ca√ßa, o trabalho com metais ou, ainda, adquirindo o conhecimento das propriedades das plantas e de sua utiliza√ß√£o. O poder, √†s√©, do ancestral-orix√° teria, ap√≥s a sua morte, a faculdade de encarnar-se momentaneamente em um de seus descendentes durante um fen√īmeno de possess√£o por ele provocada.‚ÄĚ (Verger, 2018, p. 26).

Iemanj√° (Y√®y√® omo ej√° ‚ÄĒ M√£e cujos filhos s√£o peixes) √© o orix√° dos Egb√°, povo estabelecido na regi√£o entre If√© e Ibadan na Nig√©ria, pr√≥ximo a um rio chamado Yemoja (eu n√£o consegui encontrar esse rio no mapa, encontra-se facilmente o rio Osun, o qual eu acredito que seja este o referido no texto do Verger como √íg√Ļm).

‚ÄúAs guerras entre as na√ß√Ķes iorub√°s levaram os Egb√° a emigrar na dire√ß√£o oeste (‚Ķ) no in√≠cio do s√©culo XIX. Evidentemente, n√£o lhes foi poss√≠vel levar o rio, mas em contrapartida, transportaram consigo os objetos sagrados, suportes do √†s√© da divindade, e o rio √íg√Ļn, que atravessa a regi√£o, tornou-se, a partir de ent√£o, a nova morada de Iemanj√°.‚ÄĚ (Verger, 2018, p. 196).

Segundo Verger o principal templo de Iemanj√° fica em Ibar√°, na regi√£o de Abeokut√°, Nig√©ria, por√©m eu n√£o consegui encontr√°-lo no google map. Creio que para precisar essa informa√ß√£o teria que ter uma atualiza√ß√£o dos textos de Verger, que foram escritos em 1981. Mas o que √© relevante dessa informa√ß√£o, √© que nas celebra√ß√Ķes deste templo os fi√©is v√£o todo ano buscar a √°gua salgada para lavar os seus √†s√© no afluente do rio √íg√Ļn. Estas √°guas s√£o recolhidas em jarras, atrav√©s de uma prociss√£o com pessoas segurando esculturas de madeiras e tambores. O cortejo na volta vai saudar todas as pessoas importantes do bairro, come√ßando por Ol√ļb√†r√†, o rei Ibar√° (Verger, 2018).

Acredita-se que muitos Egb√° (ou seus descendentes) tenham sido escravizados e trazidos para o Brasil, principalmente na regi√£o da Bahia. Bahia foi o lugar principal dos estudos de Verger que relata que essa regi√£o teve um contato intenso com os povos de Angola e do Congo, at√© aproximadamente o final do s√©culo XVII. Depois vieram mais os povos situados √† costa leste do Forte de S√£o Jorge de Minas, situada no golfo de Benin, entre o rio Volta e o rio Lagos. ‚ÄúTais rela√ß√Ķes limitaram-se, posteriormente, √† parte central da referida regi√£o, conhecida pela triste denomina√ß√£o de ‚ÄúCosta dos Escravos‚ÄĚ, cujo principal era Uid√° (‚Ķ).‚ÄĚ (VERGER, 2018, p. 30‚Äď31).

Na √Āfrica, cada povo e cada regi√£o tinha pr√°ticas espec√≠ficas para alguns orix√°s (√†s vezes apenas um). Quando esses diversos povos foram trazidos para o Brasil, muitas regi√Ķes se misturaram, trazendo diversos rituais para diversos orix√°s.

Preciso dizer que escrever essa parte do texto me trouxe uma energia bem pesada (claro). Porque apesar de estar trazendo como no Brasil o Candombl√© foi constru√≠do como resist√™ncia da cultura e religi√£o dos povos escravizados da √Āfrica, eu tamb√©m estou falando de uma das maiores viol√™ncia e exterm√≠nio j√° cometido do mundo. N√≥s, brasileiros, temos uma d√≠vida k√°rmica muito grande com isso (sem falar tamb√©m sobre o exterm√≠nio nos nossos povos origin√°rios). √Č hist√≥ria, mas tamb√©m √© d√≠vida espiritual, social e econ√īmica.

Dito isto, com muito respeito vou fazer uma virada energ√©tica no texto aqui para trazer algumas mitologias de Iemanj√° registrada por Reginaldo Prandi em sua pesquisa que deu origem ao livro ‚ÄúMitologia dos Orix√°s‚ÄĚ. Aqui minha inten√ß√£o √© trazer os mitos e cada leitor pode ir fazendo sua conex√£o com essa energia, sem falar dos arqu√©tipos, celebra√ß√Ķes etc. Apenas os mitos.

Iemanjá ajuda Olodumare na criação do mundo

Olodumare-Olofim vivia só no Infinito,

cercado apenas de fogo, chamas e vapores,

onde quase nem podia caminhar.

Cansado desse seu universo tenebroso,

cansado de n√£o ter com que falar,

cansado de n√£o ter com quem brigar,

decidiu p√īr fim √†quela situa√ß√£o.

Liberou as forças e a violência

delas fez jorrar uma tormenta de √°guas.

As √°guas debateram-se com rochas que nasciam

e abriram no ch√£o profundas e grandes cavidades.

A √°gua encheu as fendas ocas,

fazendo-se os mares e oceanos,

em cujas profundezas Olocum foi habitar.

Do que sobrou da inundação se fez a terra.

Na superfície do mar, junto à terra,

ali tomou seu reino Iemanj√°,

com suas algas e estrelas-do-mar,

peixes, corais, conchas, madrepérolas.

Ali nasceu Iemanj√° em prata e azul,

coroada pelo arco-íris Oxumarê.

Olodumare e Iemanj√°, a m√£e dos orix√°s,

dominaram o fogo do fundo da Terra

e o entregaram ao poder de Aganju, o mestre dos vulc√Ķes,

por onde ainda respira o fogo aprisionado.

O fogo que se consumia na superfície do mundo eles apagaram

e com suas cinzas Orix√° Oc√ī fertilizou os campos,

propiciando o nascimento das ervas, frutos,

√°rvores, bosques, florestas,

que foram dados aos cuidados de Ossaim.

Nos lugares onde as cinzas foram escassas,

nasceram os p√Ęntanos, a peste,

que foi doada pela m√£e dos orix√°s ao filho Omulu.

Iemanj√° encantou-se com a Terra

e enfeitou os rios, cascatas e lagoas.

Assim surgiu Oxum, dona das √°guas doces.

Quando tudo estava feito

e cada natureza se encontrava na posse de um dos filhos de Iemanj√°,

Obatalá, respondendo diretamente às ordens de Olorum,

criou o ser humano.

E o ser humano povoou a Terra.

E os orix√°s pelos humanos foram celebrados.

(PRANDI, 2001, p. 380‚Äď381)

Iemanjá é violentada pelo filho e dá à luz os orixás

Da união entre Obatalá, o Céu,

e Odudua, a Terra,

nasceram Aganju, a Terra firme,

e Iemanj√°, as √Āguas.

Desposando seu irm√£o Aganju,

Iemanjá deu à luz Orungã.

Orung√£ nutriu pela m√£e um incestuoso amor.

Um dia, aproveitando-se da ausência do seu pai,

Orung√£ raptou e violou Iemanj√°.

Aflita e entregue a total desespero,

Iemanjá desprendeu-se dos braços do seu filho incestuoso

e fugiu.

Perseguiu-a Orung√£.

Quando ele estava prestes a apanh√°-la,

Iemanj√° caiu desfalecida

e cresceu-lhe desmesuradamente o corpo,

como se suas formas se transformassem em vales, montes, serras.

De seus seios enormes como duas montanhas nasceram dois rios,

que adiante se reuniram numa só lagoa, originando adiante o mar.

O ventre descomunal de Iemanj√° se rompeu

e deles nasceram os orix√°s:

Dad√°, deusa dos vegetais,

Xang√ī, deus do trov√£o,

Ogum, deus do ferro e da guerra,

Oculum, divindade do mar,

Oloss√°, deusa dos lagos,

Oiá, deusa do rio Níger,

Oxum, deusa do rio Oxum,

Ob√°, deusa do rio Ob√°,

Oc√ī, orix√° da agricultura,

Oxóssi, orixá dos caçadores,

Oquê, deus das montanhas,

Aj√™ Xalug√°, orix√° da sa√ļde,

Xapanã, deus da varíola,

Orum, o Sol,

Oxu, a Lua,

E outros e mais outros orix√°s nasceram

do ventre violado de Iemanj√°.

E por fim, nasceu Exu, o mensageiro.

Cada filho Iemanjá tem sua história,

cada um tem seus poderesm.

(PRANDI, 2001, p. 381‚Äď383)

Iemanj√° afoga seus amantes no mar

Iemanjá é dona de rara beleza

e, como tal, mulher caprichosa e de apetites extravagantes.

Certa vez saiu de suas moradas nas profundezas do mar

e veio à terra em busca do prazer da carne.

Encontrou um pescador jovem e bonito

e o levou para o seu líquido leito de amor.

Seus corpos conheceram todas as delícias do encontro,

mas o pescador era apenas um humano

e morreu afogado nos braços da amanhte.

Quando amanheceu, Iemanjá devolveu o corpo à praia.

E assim acontece sempre, toda noite,

quando Iemanj√° Conl√° se encanta com os pescadores

que saem em seus barcos e jangadas para trabalhar.

Ela leva o escolhido para o fundo do mar e se deixa possuir

e depois o traz de novo, sem vida, para a areia.

As noivas e as esposas correm cedo para praia

esperando pela volta dos seus homens que foram para o mar,

implorando a Iemanj√° que os deixe voltar vivos.

Elas levam para o mar muitos presentes,

flores, espelhos e perfumes,

para que Iemanj√° mande sempre muitos peixes

e deixe viver os pescadores.

(PRANDI, 2001, p. 390‚Äď391)

Referências Bibliográficas:

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orix√°s. S√£o Paulo: Companhia das Letras, 2001.

VERGER, Pierre. Orix√°s: deuses iorub√°s na √Āfrica e no mundo novo. Salvador-BA: Funda√ß√£o Pierre Verger, 2018.

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Psychologist (CRP06/97946), PhD Social Psychology, Life Coach and Professor at PUC-SP

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Dayse Bispo Silva

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