Oxumaré/Oxumarê (português)

🇧🇷

Ainda em volta da energia do texto anterior, senti muito forte de compartilhar alguns mitos dos orixás que escrevi ontem: Oxumaré, Iemanjá e Nanã — que será dividido em três textos, cada um dedicado a um orixá.

Toda vez que converso com alguém sobre os orixás e suas mitologias, elas me perguntam onde eu aprendo essas “coisas”: estudo e prática. Minhas principais referências para estudos são o livro belíssimo do Reginaldo Prandi “Mitologia dos Orixás”, no qual ele relata as principais (e mais repetidas) mitologias que são passadas oralmente nos terreiros de Candomblé no Brasil. E, pela parte histórica e visual, o livro do Pierre Verger “Orixás”, uma obra fundamental para entender a história africana dos orixás, trazidas pelos escravos e como o Brasil e Cuba (Novo Mundo) adaptaram suas práticas africanas com o catolicismo (catequisação forçada por conta da escravidão). Em termos de prática, tive minha experiência no nordeste de onde vim e muitas desses conhecimentos fazem parte da cultura regional. Aqui em São Paulo, aprendi a prática de incorporação através do grupo místico que frequento, mas é um espaço que praticamos mais Umbanda que Candomblé.

Não quero me ater a estas diferenças (talvez num outro texto), mas importante frisar aqui que falo de um lugar de admiradora e praticante das religiões afrodescendentes e não de um lugar de especialista. Falo de um lugar de respeito enorme pela história da negritude neste país e de uma composição da luta anti-racista que nos faz imprescindível atualmente.

Antes de trazer os mitos, queria compartilhar também o porque incorporei tanto este conhecimento ancestral às minhas práticas espirituais.

Fui criada católica, batizada e ia aos domingos à missa (meio forçada pela minha mãe que é muito católica). Entretanto, eu não conseguia me conectar com aquele Deus punitivo, por aquele homem pregado na cruz em sofrimento. Não me fazia sentido isso e por curiosidade comecei a explorar outras religiosidades. Importante dizer que hoje eu tenho uma outra conexão pela história e prática do cristianismo, mas isso fica (também) para um outro texto.

Transitei por algumas leituras até que no dia 2 de fevereiro de 2008 eu conheci a festa de Iemanjá em Salvador e minha alma sorriu. De repente fazia muito sentido para mim que a conexão com a espiritualidade, ou o divino nesta dimensão, se fizesse pela conexão com a natureza. Quanto mais leio os mitos dos orixás e substituo os nomes deles por seus elementos principais da natureza, vejo cada vez mais a beleza que é contar as relações desses elementos entre eles, de uma forma mística (os gregos fizeram isso também). E é com essa sensação de descoberta da conexão com o divino na natureza que quero compartilhar alguns mitos.

Oxumaré/Oxumarê

A serpente-arco-íris que recolhe a água que cai da terra durante a chuva e a leva de volta para as nuvens (Verger, 2018).

“Oxumaré que fica no céu

Controla a chuva que cai sobre a terra

Chega à floresta e respira como o vento

Pai, venha até nós para que cresçamos e tenhamos longa vida”

(Verger, 2018, p. 213)

Feminino e Masculino juntos, representa a multiplicidade de todos os seres, por isso o arco-íris como um dos seus elementos. Como elemento da natureza, sua relação está com a chuva:

Oxumarê desenha o arco-íris no céu para estancar a chuva

Contas-e que Oxumarê não tinha simpatia pela Chuva

Toda vez que ela reunia suas nuvens

e molhava a terra por muito tempo,

Oxumarê apontava para o céu ameaçadoramente

com sua faca de bronze

e fazia com que a Chuva desaparecesse, dando lugar ao arco-íris.

Um dia Olodumare contraiu uma moléstia que o cegou.

Chamou Oxumarê, que da cegueira o curou.

Olodumare temia, entretanto, perder de novo a visão

e não permitiu que Oxumarê voltasse à Terra para morar.

Para ter Oxumarê por perto, determinou que morasse com ele,

e que só uma vez em quando viesse à Terra em visita, mas só em visita.

Enquanto Oxumarê não vem à Terra,

todos podem vê-lo no céu com sua faca de bronze,

sempre se fazendo no arco-íris para estacar a Chuva.

(PRANDI, 2001, p. 224)

2022 é o ano regido por Oxumarê… e nunca se viu tanta chuva nesse país… e olhando para perspectiva mitológica/espiritual, todos esses efeitos da natureza querem nos dizer algo. A mim, por este orixá ser o tão próximo às chuvas e, mais ainda, ser o orixá da transformação… eu sinto que essas chuvas vem a limpar algo, a transformar algo… ao menos meu início de ano tem sido assim.

Oxumarê transforma-se em cobra para escapar de Xangô

Oxumarê era um rapaz muito bonito e invejado.

Suas roupas tinham todas as cores do arco-íris

e suas jóias de ouro e bronze faiscavam de longe.

Todos queriam aproximar-se de Oxumarê,

mulheres e homens, todos queriam seduzi-los

e com ele se casar

Mas Oxumarê era muito contido e solitário.

Preferia andar sozinho pela abóbada celeste,

onde todos costumavam vê-lo em dia de chuva.

Certa vez, Xangô viu Oxumarê passar,

com todas as cores de seu traje e todo brilho dos seus metais.

Xangô conhecia a fama de Oxumarê

de não deixar ninguém dele se aproximar.

Preparou então uma armadilha para capturar o Arco-íris.

Mandou chamá-lo para uma audiência em seu palácio

e, quando Oxumarê entrou na sala do trono,

os soldados de Xangô fecharam as portas e as janelas,

aprisionando Oxumarê junto com Xangô.

Oxumarê ficou desesperado e tentou fugir,

mas todas as saídas estavam trancadas pelo lado de fora.

Xangô tentava tomar Oxumarê nos braços

e Oxumarê escapava, correndo de um canto para outro.

Não vendo como se livrar, Oxumarê pediu a Olorum

e Olorum ouviu sua súplica.

No momento em que Xangô imobilizava Oxumarê,

Oxumarê foi transformado numa cobra,

que Xangô largou com nojo e medo.

A cobra deslizou pelo chão em movimentos rápidos e sinuosos.

Havia uma pequena fresta entre a porta e o chão da sala

e foi por ali que escapou a cobra,

foi por ali que escapou Oxumarê.

Assim livrou-se Oxumarê do assédio de Xangô.

Quando Oxumarê e Xangô foram feitos orixás,

Oxumarê foi encarregado de levar água

da Terra para o palácio de Xangô no Orum,

mas Xangô não pode nunca aproximar-se de Oxumarê.

(PRANDI, 2001, p. 226–227)

Filho de Oxalá e Iemanjá, representa o céu, a terra e a água. Por isso seu poder de transformação — tempo e eternidade — “depois da tempestade sempre vem bonança” já diz o ditado popular. Orixá do movimento.

Em sua representação católica, está associado à São Bartolomeu, cuja oração fala da força de sua varredura sob a Terra de todos os nossos inimigos:

ORACAO DE SÃO BARTOLOMEU

São Bartolomeu,

Vós que sois o senhor dos ventos

Vós que fazeis a varridela sobre a terra fria,

Vos que fazeis dobrar as arvores e palmeiras com a força de vossa ventania.

São Bartolomeu,

Que comandais os ciclones, rasgando com o poder de Vossa Força,

Devastando e transformando tudo o que encontrais pelo caminho,

Reduzindo a destroços

Por onde passar a varridela de vossas forças,

Atingindo sempre os locais onde Deus quer renovar,

Pois o homem é mau por natureza, egoísta e pretensioso.

E vós, São Bartolomeu, Fostes escolhido por Deus

Para abalar os locais que por natureza

Devem mostrar com mais força a presença de Deus.

Pois o homem,

na sua infinita ignorância,

A cada dia que passa, de Deus se esquece,

E passa a se considerar um deus sobre a terra fria.

São Bartolomeu,

Fostes escolhido

para mostrar ao homem

Que a força de Deus ainda reina por todos os séculos

E quando o homem ignora por completo a Sua presença,

Vós, São Bartolomeu,

Sois o encarregado de fazer a transformação do mundo.

E como sois conhecido nos quatro cantos da terra,

Comandando os tufões e furacões,

É que Vos peço

que carregueis no Vosso vento todo mal,

Todo embaraço,

Toda dificuldade,

Toda falsidade minha e de meus inimigos,

Hoje e durante a noite e amanhã, por todo dia.

Que assim seja!

(Ordem Princípio e Luz)

Apertem os cintos porque 2022 está sendo/será intenso!

Referências Bibliográficas:

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

VERGER, Pierre. Orixás: deuses iorubás na África e no mundo novo. Salvador-BA: Fundação Pierre Verger, 2018.

ZOLRAK. O tarô sagrado dos orixás. 2. ed. São Paulo: Editora Pensamento, 2018.

Imagem retirada do Instagram @axeenergia

--

--

Psychologist (CRP06/97946), PhD Social Psychology, Life Coach and Professor at PUC-SP

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store
Dayse Bispo Silva

Psychologist (CRP06/97946), PhD Social Psychology, Life Coach and Professor at PUC-SP